BRICK DE IDÉIAS

20/10/2004 16:54
Quando eu me mudei pra São Paulo, no final de 1999, deixei pra trás os amigos, uma “namorada”, uma banda( Seven fields) e alguns sonhos adolescentes.
Lembro como se fosse hoje:
A noite anterior a minha partida, eu dormi na casa do Sandro, aliás, eu nem dormi, ficamos tomando uns tragos até de madrugada. Afinal, as coisas não mudaram tanto assim. Hehehe!!
Ao acordar pela manhã, encontrei Aline _guria com quem eu “namorava” na época_ sentada na cama, fitando-me com um olhar triste. Ao contrário de mim, ela não estava acostumada com esse negócio de despedidas. Na tentativa de amenizar o sentimento de perda, fomos até o banheiro do Sandro e transamos feito loucos. Duas horas e três camisinhas depois, saí do banheiro e me despedi de todos da casa. Caminhei confiante e sem olhar pra trás.
Durante a viagem, só o quê pensava era no Sandro tentando se aproveitar do estado frágil de Aline. Sou capaz de apostar como ele tentou fodê-la naquela mesma noite. Hehehe. Mas isso são apenas especulações.
Foi na cidade de Cubatão_ durante vários anos considerada a mais poluída do mundo_ que fixei residência. Na primeira noite em que saí em busca de diversão, descobri, decepcionado, que não havia nada além de Forró e Pagode. Pra piorar, as gurias de lá eram tão feias, mas tão feias que se elas se olhassem no espelho teriam sete anos de azar.
Passei várias semanas sem ter com quem conversar. Ligava pra Dica, às vezes, pra saber do pessoal. Durante esse período, ela foi a única a me escrever quase todos os meses. Para espantar a solidão eu lia, compulsivamente, vários livros ao mesmo tempo. Já estava perdendo as esperanças em fazer alguma amizade naquele lugar dos infernos, até que um dia, caminhando a esmo pela rua, olhei para o lado e vi um enorme prédio, iluminado por alguns raios de sol que atravessam as espessas nuvens de poluição, dando-lhe uma aparência quase sacra. Não lembro se ouvi, ou pensei ter ouvido, cornetas angelicais soando notas harmoniosas em um prelúdio divinamente divino, só o quê sei é que estava escrito na frente daquele prédio abençoado: Conservatório Musical!!!
Sentindo-me abençoado, tratei logo de entrar para saber mais informações.

_OI!! Disse eu, com um sorriso Monalístico.
_Pois não. Disse uma senhora, sem tirar os olhos da Tv.
_Eu queria saber como eu faço pra estudar violão clássico? Tem que pagar, não?
_Não, não precisa pagar. Você tem que se escrever para a prova de classificação que acontecerá dia tal (?) e ficar entre os 10 primeiros colocados. Este ano, por falta de professores, foram abertas apenas dez vagas.
_Hum...E é muito concorrido?
_Até a data de hoje já temos 480 inscritos.
_...

Saí de lá sem saber o que pensar. Escrevi-me pra fazer a tal prova, mas, sinceramente, não acreditava que poderia passar.
No dia marcado, lá estava eu cercado de várias pessoas com a mesma expressão que a minha, um misto de descrença e insegurança. Quando fomos chamados para entrar no auditório principal, qual não foi a minha surpresa ao saber que a prova não tinha nenhuma questão prática, sendo apenas questões teóricas e de percepção musical.
“Fodeu!!” eu pensei. Já que estava me valendo da habilidade _ou no meu caso, a falta dela_ com o instrumento. Tudo bem, não custava nada tentar.
Duas semanas se passaram até divulgação do resultado.
Fui lá só por ir mesmo, já que não acreditava que ficaria entre os dez primeiros de um total de quase quinhentos candidatos.
Procurei o meu nome entre os últimos e fui subindo. Queria prolongar um pouco mais o meu sofrimento. Quando vi que não estava entre os últimos trezentos, senti-me esperançoso e resolvi acabar de vez com a palhaçada.
A lista com os dez primeiros estava em negrito. Fui olhando os nomes, um a um, bem devagarzinho até que:

Colocação—------------Nome do candidato---------------Nota
3° Lugar José Luciano de Oliveira Vellozo 9,8

Assim que cheguei em casa, já fui logo colocando as cevas pra gelar. Mais à noite, fiz um churrasco pra comemorar. Mal podia acreditar que tinha passado entre quinhentas pessoas. Meu ego, só pra constar, foi parar em saturno. Hehehehe
Fiz outra prova, agora com o instrumento, para pular alguns anos e por sorte _mas adiante vocês entenderão o porquê_ acabei passando para a quinta série, mas logo na primeira avaliação geral, tirei zero em ditado melódico e um e meio em ditado rítmico. Os meus professores disseram que, apesar de ter uma boa técnica, o meu conhecimento teórico deixava muito a desejar, então, me colocaram de volta pra quarta série. Hehehehe
Estudei um ano lá. Nesse período tive que tocar todas as partituras dos anos que havia pulado. Era música pra caralho, louco!!! Mas no fim deu tudo certo. Aprendi a ler partituras, teoria musical, harmonização, história da música e o caralho a quatro.

No fim do ano, já não agüentando mais de saudade dos amigos, resolvi viajar pra Cachoeirinha. No ano seguinte, eu me empolguei com as férias do serviço e perdi a vaga no conservatório. Só me arrependo de uma coisa: Durante o tempo em que estudei lá, era só eu levar uma foto, uma mísera foto, para tirar a carteira de músico nível dois. Infelizmente a idiotice parece ser um traço da minha personalidade que insiste em vigorar em mim.

Ai ai



enviada por ZE WAS HERE






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)